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A PAZ DE CADA NOTA


Imagine um vão de Shopping Center. Aquele que do alto somos capazes de apreciar o movimento de todos os andares inferiores. Aquele de onde já nos imaginamos caindo ou de onde já sentimos a tentação de jogar algo! Não com intenções de incomodar quem passa, mas pelo simples e irresponsável desejo de ver o que acontece!
Imagine, nos pisos desse vão, pessoas reunidas em prol de mais uma apresentação musical. A cantora Joyce (hoje Joyce Moreno) era esperada com muito carinho por vários fãs de suas canções! Mais que isso, desejávamos apreciar o timbre de sua bela voz envolvida nos acordes de seu violão encantado e “encantante”!
Ela chegou dividindo sorrisos e partilhando paz a cada passo. Sentou em seu banquinho herdado da Bossa Nova e continuou sua partilha de paz a cada compasso. Todos éramos envolvidos pelo poder da harmonia. Pela sedução das palavras bem compostas. Pela estética do simples a serviço do sentimento!
Mas, no centro da plateia algo se destacava: um casal teimava em continuar de pé e era envolvido por inúmeros que se sentavam no chão. Também, de forma incoerente, pedaços de papéis amassados eram atirados no casal em constante súplica de compreensão - ainda agimos como animais para suplicar atitudes humanas. Cada arremesso era um convite para novos arremessos. De todos os lados e andares objetos eram lançados com gritos exigentes de colaboração.
E ninguém colaborava mais com a harmonia das canções. Todos tinham a atenção desviada ao casal de pé no centro de todo o grupo que estava sentado! Joyce ensaiava um pedido improvisado de humanidade! Mas o instinto falava mais alto. Cada música tinha a execução prejudicada pelo conflito.
O casal resolveu partir. De todos os lados ouvíamos palmas desviadas! Enquanto esquecíamos as canções blindávamos a nova conquista: a expulsão do elemento divergente! Voltamos nossos olhares e ouvidos ao foco de nossa presença! Tínhamos de novo a oportunidade de sermos seduzidos pela harmonia! De cantar como anjos apesar dos urros de feras. Tudo aparentava estar do jeito que esperávamos! Uma linda música, uma excelente cantora, uma ótima visão...
Imagine do alto, de algum dos pisos, quase que em câmera lenta, um saco plástico testando nosso desejo primitivo de se jogar. Mas, com a intenção do incômodo e com o simples e irresponsável desejo de acontecer! O líquido transparente de seu interior encontrou o público sentado como se fosse chuva e molhou cada inocente interpretação do que acontecia! Logo, o cheiro revelava a verdade. As roupas manchadas denunciavam o ato insano. Os olhos ardidos demonstravam a acidez dos atos desumanos. A chuva ácida de água sanitária era a contribuição do casal que não senta aos questionamentos selvagens de vida em sociedade.
Diante das feras irritadas havia gritos em nome da justiça. Havia lágrimas de inconformação. Havia movimentos na busca de seguranças ou de segurar o casal. Nem lembrávamos mais o motivo de nosso encontro. Choros e brados eram mais altos do que canções. Mas, não eram mais altos do que sentimentos!

Uma fagulha de amor iniciava seu legado de mudanças. Uma gota de esperança limpava cada amargura. Por entre os tons de lamentos uma canção era executada de forma instrumental, apenas pelo violão. Chegava com certa timidez, mas resgatava de cada ser humano a dignidade escondida. Suave eficiência! Trazia mansidão a toda fera e reencontrava a razão de estarmos juntos: cantar!  
Era inevitável o contágio! Era irrecusável o convite! Alguns começaram a cantá-la, e num crescente incalculável éramos, finalmente, todos! Quase que abraçados como numa grande festa de fim de ano! Quase que esquecidos das jaulas abertas! Quase que desfigurados pelos próprios atos, éramos humanos de novo! A música enchia nosso coro de vida! E nossa vida de cor!
Como se fosse um mantra, todos repetíamos a canção e sentíamos a mensagem de sua letra. Éramos corações de mel, de melão, de sim e de não! Feito bichinhos em nossas atitudes escuras e esperançosas de sóis matutinos. Novelos de lã enrolados em nós mesmos e com pontas escondidas em nossos receios. Mas, temos mães como Joyce, que abriu mão do direito de partir diante da apresentação prejudicada, e preferiu seguir o dever de acalmar os corações, que em seu ventre batiam descompassados. Éramos, naquele momento, irmãos de Clara, Ana e quem mais chegar. Éramos aqueles que mais chegavam! Elementos que buscavam na harmonia do amor razões para sermos uma só família!
Várias repetições e havia paz em nossas almas! Joyce só tocava seu violão, não cantava, não sorria,... mas ainda contagiava em nome da busca pela paz.
Diante da certeza do dever cumprido, levantou-se e partiu. Sem palavras... não precisávamos delas!
Precisamos de vida para nos lembrarmos que estamos vivos!

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