Pessoas
caminham para todos os lados e nem veem que as ruas são diferentes apesar da
rotina. Não notam que rochas e construções se renovam. Novas companhias, novos
climas, novidades. Lugares comuns, com outras aparências e
personagens. Não percebem que uma caixa é colocada na calçada! Que tem as
marcas do uso e a cor do tempo e nela jaz um corpo de madeira e uma alma de
crina pronta para a vida! Prontos para as mãos divinas.
Arco
bailando, cordas vibrando,... o palco de anônimos apresenta Antônio e seu
violino, no centro do Rio, soando com a tarde toda beleza!
O
andamento da música alterava o rumo de quem transitava e trazia novo sentido
aos que lá já estavam. Profissionais de todas as linhas e linhos eram
envolvidos pelo encanto do inusitado.
O
senhor atrasado deu um passo atrás e, fora do mundo, encontrou seu tempo. Tinha
nos olhos a alegria emocionada e emocionante de quem trazia nas rugas a saudade
dos momentos de magia. Sorria, feito criança.
A
senhora carente deu suspiros de moça diante da sensualidade dos movimentos.
Tinha o coração marcando a dinâmica do bolero. Um curto crescente de otimismo.
O
vendedor cego batia na perna seu próprio ostinato, marcando compassos silenciosos.
Esquecia da mercadoria exposta, esquecia do escuro imposto e trazia no rosto o
entusiasmo instantâneo de poucos instantes.
A
criança de rosto molhado pendia no colo da mãe, mas os acordes vibrantes
fixavam seus olhos chorosos no solista. Afastava-se oscilante, um metrômetro na
cadência dos passos.
Jovens
engravatados mudam o rumo da própria conversa. Deixam, momentaneamente, as
conquistas juvenis para anunciar aos demais integrantes da platéia o nome do
maestro eternizado pela obra: Ravel!
Trocados
de todos os valores são lançados na caixa. Não sabem do valor de cada nota. Do
efeito deixado em cada pedra. Dos rumos alterados em tempo e espaço.
Apesar
das buzinas, dos gritos, dos passos agressivos, ..., das selvagerias urbanas,
um relicário sonoro ecoava vida!
E
precisamos de vida para nos lembrarmos que estamos vivos!
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